Ilha de Trindade - Um inóspito paraíso no Atlântico Sul (cont)


O desembarque só é autorizado pelo comandante da ilha se as condições do tempo forem favoráveis. Em Trindade não há praia. As raras faixas de areia terminam em pedras e corais quando tocam o mar, o que transforma o desembarque numa operação de guerra.
Os botes infláveis têm de ser pilotados com experiência para surfar na forte arrebentação e conduzir os tripulantes até a areia. Se a manobra não for perfeita, existe o risco de uma capote ou de uma projeção contra as pedras. Os militares da ilha monitoraram essa operação.

As embarcações que chegam à Trindade costumam fundear (jogar a âncora) junto à Enseada dos Portugueses, local onde está a base da Marinha do Brasil , guarnecida por 40 militares que fazem um revezamento a cada quatro meses. Nessa enseada, um navio pesqueiro e um veleiro, destroçados contra as pedras, parecem servir como um alerta aos visitantes. O pesqueiro coreano Kao Shing foi atirado aos rochedos pela própria tripulação que assassinou o comandante e o cozinheiro da embarcação em 1989. Os amotinados foram recolhidos pela Marinha e depois, repatriados. O veleiro francês de casco amarelo foi projetado às pedras quando o casal que o tripulava foi surpreendido pela súbita mudança do tempo durante uma visita à ilha.
Os bem aventurados que conseguem pisar em Trindade, precisam continuar tomando todos os cuidados recomendados pelo contingente. A cada passo, um novo perigo. As caminhadas pela ilha são permitidas apenas sob acompanhamento de dois soldados. Em caso de acidente, um deles permanece no local com a vítima, enquanto o segundo retorna à base para buscar ajuda. Na escalada da ilha, cujo ponto mais alto, o Pico de Desejado, atinge uma altitude superior a 600 metros, são comuns os deslizamentos de farelos de rochas vulcânicas. Para quem se aventura à beira-mar, na rota das piscinas naturais, o perigo está nos ouriços e nas pedras soltas, que podem machucar os menos cautelosos.