Consumo , descarte e riqueza

Por Fabio Reynol , da ComCiência

Mais da metade da produção mundial de lixo urbano pertence aos cidadãos dos países desenvolvidos. A cada ano , 2 , 5 bilhões de fraldas são descartadas pelos britânicos , 30 milhões de câmeras fotográficas descartáveis vão para os lixos japoneses e 183 milhões de lâminas de barbear , 350 milhões de latas de spray e 2 , 7 bilhões de pilhas e baterias são destinadas aos lixões norte-americanos. Até as indústrias da fatia mais rica do planeta são campeãs na geração de rejeitos. Estima-se que para cada cem quilos de produtos manufaturados nos Estados Unidos , são criados 3.200 quilos de lixo. A organização indiana Centre for Science and Environment (CSE) , que levantou esses dados , chegou à conclusão de que os países ricos são melhores produtores de lixo do que propriamente de bens de consumo. Os números também revelam uma faceta do sistema produtivo moderno: a quantidade de lixo produzida está diretamente associada ao grau de desenvolvimento econômico de um país. Quanto mais abastada , mais lixo a nação produz. Não é por acaso que o país mais rico do mundo , os Estados Unidos , lidera o ranking dos maiores geradores de lixo per capita do mundo , ostentando a média de quase meia tonelada de rejeitos por habitante a cada ano.

Parte da explicação desse problema está no desequilíbrio entre os povos na participação dos mercados de consumo. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) já havia levantado em 1998 , em seu último relatório sobre consumo mundial , que só 20% da população do planeta é responsável por 86% dos gastos com o consumo individual. O PNUD apurou ainda que 45% das carnes e peixes consumidos no mundo vão para os pratos desse um quinto mais rico da população , o mesmo que se utiliza de 58% da energia do planeta. Do outro lado , 60% das 4 , 4 bilhões de pessoas que habitam os países em desenvolvimento vivem sem saneamento básico , 20% mora em habitações precárias e um terço delas não tem nem água potável. Situações sociais tão díspares também resultam em impactos diferentes sobre o meio ambiente , e os resíduos sólidos , a que comumente chamamos de lixo , estão entre eles.

O ambientalista Alan Thein Durning , diretor executivo da Norwest Environment Watch , uma ONG norte-americana , associou o consumo crescente das nações ricas aos principais problemas ambientais do planeta. Em seu livro How much is enough? The consumer society and the future of the earth (Quanto é o bastante? A sociedade de consumo e o futuro da terra) , Durning dividiu o mundo em três grupos de consumo , de acordo com o impacto ambiental produzido por cada um. No topo da pirâmide , segundo o autor , está 1 , 1 bilhão de pessoas que andam de carro e avião , abusam dos produtos descartáveis e consomem muita comida embalada e processada. No meio , situa-se a maior parcela da população , com 3 , 3 bilhões de pessoas que andam de ônibus ou bicicleta , mantém um consumo frugal e se alimentam de produtos e grãos produzidos localmente. Por fim , 1 , 1 bilhão de indivíduos que andam a pé e não têm acesso às condições mínimas para manter a própria saúde , vivem com uma dieta irrisória de grãos e água não-potável. O estudo de Durning conclui que a fatia mais rica do globo é , de longe , a mais poluidora.

Além da quantidade , a qualidade do lixo também pode identificar o grau de riqueza de seu produtor. O papel descartado , por exemplo , poderia ser um fiel indicador de desenvolvimento econômico de uma nação , segundo dados publicados pelo periódico britânico The Economist. Nos países de baixa renda , de acordo com a publicação , o papel responde por apenas 2% do lixo; nos de renda média , o percentual sobe para 14%; e nas nações ricas , os derivados da celulose chegam a impressionantes 31% , quase um terço da montanha de lixo. Com os restos orgânicos de origem vegetal , ocorre o oposto. Na parte mais favorecida do planeta , esse lixo equivale a 25% do total; nas regiões de riqueza intermediária ele fica em 47% e onde há mais pobreza esse descarte chega a ser 52% dos rejeitos.

O lixo dos pobres e dos ricos

As diferenças entre as classes sociais na produção dos resíduos sólidos são percebidas também em escalas menores. De setembro a dezembro de 2003 , a geóloga Maria de Fátima da Silva Nunesmaia , da Universidade Estadual de Feira de Santana , na Bahia , coordenou uma pesquisa que contou com a ajuda da Empresa de Limpeza Pública de Salvador (Limpurb). O grupo de Nunesmaia analisou , nesses três meses , a composição do lixo doméstico produzido pela população da capital baiana. Entre as principais diferenças encontradas entre o lixo dos mais ricos (renda familiar acima de 15 salários mínimos) e o dos desfavorecidos (renda de até cinco salários mínimos) está o percentual de resíduos orgânicos. Enquanto os soteropolitanos mais abonados têm 50% de material orgânico em seu lixo , nas camadas mais pobres essa parte representa 57% , em média. No descarte de papel e papelão , os ricos costumam ter percentualmente o dobro do montante de seus conterrâneos mais pobres , 7 , 28% contra 3 , 56% , respectivamente. Apesar do estudo minucioso , a geóloga admite que boa parte do lixo , especialmente o das classes mais ricas , pode ter sido recolhida pelos catadores antes de chegar às mãos dos pesquisadores. Uma hipótese que se reforça ao olharmos a participação dos resíduos sólidos na economia nacional.

O lixo é fonte de renda direta para mais de meio milhão de brasileiros que atuam como catadores. Foi o que apuraram as psicólogas Luiza Ferreira Medeiros e Kátia Barbosa Macedo , da Universidade Católica de Goiás. Em seu trabalho “Catador de material reciclável: uma profissão para além da sobrevivência” , publicado em 2006 na revista Psicologia & Sociedade , as duas colocam os catadores na chamada “inclusão social perversa” , uma maneira de mascarar a exclusão social de que eles são vítimas. Isso acontece porque muitos autores associam a exclusão social ao desemprego. O catador de lixo , no entanto , trabalha sem ter um emprego e assim é visto como alguém inserido na sociedade , quando , na verdade , ele pertence a uma categoria que está bem longe de gozar dos direitos e até dos tratamentos dispensados aos demais trabalhadores. Segundo a mesma pesquisa , as idéias negativas relacionadas ao lixo como algo sujo , inútil e digno de descarte são estendidas também aos catadores para os olhos de boa parte da sociedade , o que alimenta os preconceitos.

A cientista política Vanessa Baird , na Universidade do Colorado , nos Estados Unidos , resume em uma frase as relações que as sociedades mantêm com os catadores de lixo: “A sociologia do lixo é simples , o rico produz e o pobre trabalha com ele. O rico que o gera é considerado ‘limpo' , e o pobre que o recolhe é considerado ‘sujo'” , alfinetou a pesquisadora na publicação New Internationalist. Essa lógica discriminatória e preconceituosa foi confirmada por uma pesquisa brasileira realizada na Universidade Federal de Alagoas. Ao entrevistar catadores de lixo para a pesquisa intitulada “Lixo , trabalho e cidadania” , a socióloga Paula Yone Stroh e a geógrafa Michela de Araújo Santos coletaram o seguinte depoimento de uma catadora: “Quando a gente diz que é catador de lixo , muita gente acha que a gente é sujo... até se a gente pedir um copo d'água , e receber um caneco , quando a gente devolve a pessoa joga no mato. Já aconteceu isso comigo.”

Além de provocar esse estigma social , a reciclagem de lixo , da maneira como tem sido trabalhada , é considerada por alguns especialistas como mais um obstáculo ao desenvolvimento ambientalmente responsável da sociedade. Quem explica isso é o engenheiro sanitário Paulo Roberto Santos Moraes , da Universidade Federal da Bahia. “A mensagem que se ouve é a de que com a reciclagem o problema do lixo está resolvido , enquanto não há nenhum esforço para tentar reduzir a própria produção do lixo , que é a origem do problema” , alerta o pesquisador ao revelar que tem detectado aumentos ano após ano na quantidade de lixo produzida sem que nada seja feito a respeito. Além disso , Moraes lembra que muitas vezes não são considerados os custos ecológicos da reciclagem como os gastos com água e energia demandados no processo e que podem acabar gerando um ônus ambiental maior do que se o material fosse enterrado num aterro.

E apesar de a reciclagem ajudar economicamente muita gente e reduzir consideravelmente o volume dos aterros , no Brasil ela tem desprezado a parte do lixo que mais causa impacto ambiental , a orgânica , segundo apurou Maria de Fátima Nunesmaia. “É o lixo orgânico que polui o solo , contamina cisternas e lençóis freáticos , ” diz a pesquisadora. “Como a quantidade de material orgânico é maior nas classes menos favorecidas , o Brasil possui um grande volume desse tipo de lixo sendo descartado sem nenhum tratamento” , denuncia a geóloga. A especialista aponta o exemplo do Canadá , onde o lixo orgânico tem uma participação nos resíduos sólidos bem menor que no Brasil. Naquele país , comitês regionais são responsáveis pelo tratamento do lixo orgânico em mini-usinas locais de compostagem. “Éramos nós que devíamos fazer isso e dar o exemplo ao mundo” , lamenta Nunesmaia.

Brasil joga US$ 10 bi no lixo a cada ano

Com um índice nacional de 20% de reciclagem , o Brasil perde por ano o montante de US$ 10 bilhões por não recuperar todo o seu lixo. A conta foi feita pelo economista especialista em meio ambiente , Sabetai Calderoni , do Instituto Brasil Am biente. “Não tem saída , os aterros ficarão cada vez mais caros a ponto se tornarem inviáveis a qualquer prefeitura” , acredita Calderoni. Segundo ele , uma prefeitura de uma cidade de 200 mil habitantes gasta , em média , R$ 8 milhões por ano com o transporte de lixo. Se ela reciclasse todos os resíduos sólidos , além de economizar os R$ 8 milhões , ainda ganharia R$15 milhões reciclando , inclusive o lixo orgânico. “Com a vantagem de que um centro de reciclagem tem uma área sete mil vezes menor que a de um aterro sanitário” , explica o economista. O problema é que a reciclagem não agrada a todos os setores da economia.

Há grandes corporações com interesses econômicos diretamente relacionados ao aumento da produção do lixo. “Basta lembrar que a maioria das companhias de limpeza pública terceirizadas cobram por tonelada de lixo coletada” , revela o engenheiro sanitário Paulo Roberto Moraes , da UFBA. Além disso , aterros sanitários controlados têm atraído investidores internacionais ao Brasil , de olho no mercado internacional de créditos de carbono (veja reportagem). Também há os fabricantes de embalagens que não se interessam , por motivos óbvios , em criar produtos retornáveis. Para todos esses ramos da economia , diminuir a quantidade de lixo representa ganhar menos dinheiro.

Se a superprodução já era prevista por Karl Marx como uma característica intrínseca do sistema capitalista , resta-nos uma pergunta perigosa: como o lixo também alimenta uma indústria rentável , a sua redução não seria uma contradição para o sistema produtivo moderno? “Lógico que é” , responde Moraes. “Interesses poderosos não deixaram que o Brasil tivesse até hoje uma política nacional de tratamento de resíduos sólidos. Os projetos de lei que abordaram a questão não foram adiante , ” lamenta o engenheiro , para quem são necessárias mudanças educacionais e culturais em todos os níveis a fim de que o Brasil evolua nessa questão. O pesquisador recomenda as diretrizes básicas para que o capitalismo moderno não seja soterrado pelo seu próprio lixo: primeiro , devemos reduzir a produção de resíduos; segundo , reciclar o lixo que for produzido e , por fim , tratar o que não puder ser reaproveitado. Necessariamente nessa ordem.

(Envolverde/ComCiência)

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