Maioria doa material para cooperativas , mas muitos síndicos já descobriram que vender o lixo dá lucro
Rodrigo Brancatelli
Há dez anos , dava para contar nos dedos o número de prédios com coleta seletiva de lixo em São Paulo. E não é força de expressão. Segundo o Sindicato da Habitação (Secovi) , levantamentos sobre o assunto nem eram feitos por pura falta do que pesquisar. Hoje , no entanto , em 10% dos 27 mil condomínios residenciais e comerciais da cidade já ocorre a separação de plástico , vidro , papel e alumínio. A maioria doa todo o material , mas há um número crescente de síndicos que vendem lixo para reverter o dinheiro para funcionários. E a adesão vem aumentando em 30% ao ano , estima o Secovi.
"Talvez por preguiça ou mesmo falta de informação , o paulistano ainda insiste em misturar materiais recicláveis a resíduos orgânicos , o que acaba inutilizando todo o lixo" , diz Hubert Gebara , vice-presidente de Administração Imobiliária e Condomínios do sindicato. "Mas isso está mudando aos poucos. Cada vez mais temos demanda de prédios que querem adotar a coleta. Vamos lançar agora um manual da coleta seletiva para ser distribuído aos síndicos , com o intuito de aumentar ainda mais a participação da sociedade."
Aos poucos , moradores de condomínios estão aprendendo a se relacionar de uma forma mais civilizada com o lixo. Há até ONGs especializadas em ajudar síndicos a iniciarem a coleta seletiva. "Recebemos cinco pedidos novos por semana" , diz a analista de educação ambiental Ana Maria Domingues Luz , presidente do Instituto GEA , que esclarece dúvidas e auxilia gratuitamente na montagem de sistemas de coleta seletiva.
No prédio do síndico Luiz Antônio Vieira , por exemplo , no Jardim da Saúde , zona sul , uma empresa de consultoria em reciclagem organizou uma série de palestras para conscientizar funcionários e moradores dos 76 apartamentos. Há dois meses , a coleta começou de fato.
"Colocamos caixas para os moradores separarem o lixo orgânico (restos de comida) do que é realmente reciclável" , conta Vieira. "Nosso faxineiro faz então uma pré-triagem do material , que é vendido para uma cooperativa. Ela vem buscar o lixo uma vez por semana. O primeiro mês foi um sucesso. Tivemos 290 quilos de material. Rendeu R$ 400 , que colocamos num fundo de caixa para distribuir aos funcionários no fim do ano."
Já no condomínio da designer gráfica Gabriela Lins , em Pinheiros , zona oeste , a venda do lixo rendeu R$ 3 mil nos seis primeiros meses de coleta. "O dinheiro será sempre destinado a melhorias em áreas comuns" , afirma. "Pintamos o salão de festas e compramos um equipamento de som. Agora queremos trocar a escada da piscina e as luminárias. É um pequeno esforço para selecionar o que é reciclável , que depois volta em benefícios para os próprios moradores."
( Fonte: jornal O Estado de São Paulo – domingo 11/11/2007) |